O cenário econômico para 2026 desenha-se sob uma premissa que, à primeira vista, pode parecer contraditória: a ausência de grandes desastres, mas também a falta de um crescimento vigoroso. Analistas e instituições financeiras convergem para a ideia de um "pouso suave", onde o PIB deve crescer em torno de 1,7%, herdando a desaceleração iniciada no ano anterior. Para o empresário brasileiro, essa previsão de "calmaria tensa" — onde a economia não desaba, mas também não decola — esconde riscos operacionais significativos e exige uma revisão profunda das estratégias jurídicas e financeiras.
Navegar por 2026 exigirá mais do que apenas cautela; exigirá precisão cirúrgica. Diferente de uma crise aguda, onde as decisões são tomadas no calor da emergência, o cenário de estagnação moderada corrói o patrimônio de forma silenciosa, através de juros persistentemente altos e margens de lucro comprimidas.
A projeção de que a taxa Selic encerre 2026 entre 12% e 12,75% é o dado mais crítico para o planejamento estratégico das empresas de médio e grande porte. Diferente do que se espera em ciclos de recuperação, o custo do dinheiro permanecerá em patamares restritivos para segurar uma inflação que insiste em rondar o teto da meta.
Do ponto de vista jurídico e financeiro, isso impõe uma realidade dura: a alavancagem bancária tradicional continuará sendo uma âncora pesada para o fluxo de caixa. Empresas que operam com margens apertadas não podem se dar ao luxo de manter passivos financeiros atrelados a taxas flutuantes sem uma estratégia de proteção ou renegociação. O momento não é de expansão desenfreada via dívida, mas de "ajuste fino" na estrutura de capital.
Juridicamente, isso se traduz na necessidade de auditar contratos bancários em busca de abusividades ou indexadores desfavoráveis, e, mais importante, na estruturação de planejamentos tributários robustos. Em um ano onde a receita bruta pode não crescer organicamente, a eficiência tributária — recuperar créditos não utilizados, rever enquadramentos e aproveitar incentivos fiscais setoriais — torna-se a principal fonte de geração de caixa livre.

Nem todos os setores sentirão o "pouso suave" da mesma maneira, e essa assimetria cria oportunidades distintas de negócios e fusões. Enquanto setores cíclicos como indústria, comércio e construção civil sentem o impacto direto da política monetária contracionista, o agronegócio e a indústria extrativa seguem uma dinâmica própria, muitas vezes descolada dos juros domésticos.
Para o empresário do agronegócio, 2026 projeta-se como um ano de recordes e expansão de capacidade logística. A demanda jurídica aqui se volta para a estruturação de contratos de exportação seguros, proteção cambial (hedge) e regularização fundiária para expansão. Já para a indústria e o varejo, o cenário exige uma gestão defensiva: revisão de contratos de fornecimento, gestão eficiente de estoques (para evitar capital parado em um ambiente de juro alto) e uma atenção redobrada às normas trabalhistas para evitar passivos em momentos de ociosidade produtiva.
Essa disparidade cria um ambiente fértil para M&As (fusões e aquisições). Empresas capitalizadas, especialmente as ligadas às cadeias de exportação, podem encontrar oportunidades de adquirir concorrentes ou fornecedores do setor industrial que estejam desvalorizados ou endividados, consolidando mercado a preços atrativos. O jurídico, nesse contexto, atua como o arquiteto dessas transações, garantindo due diligences rigorosas para evitar a sucessão de passivos ocultos.

Não podemos ignorar que 2026 é um ano eleitoral, o que historicamente traz uma injeção de liquidez na economia através de estímulos fiscais, programas sociais (como ampliações do Minha Casa Minha Vida) e crédito subsidiado. Se por um lado isso pode aquecer o consumo no curto prazo e beneficiar setores específicos como o da construção civil e varejo popular, por outro, gera um risco de "voo de galinha".
O perigo para o gestor está em basear investimentos de longo prazo em uma demanda artificialmente sustentada por políticas públicas pontuais. A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o aumento do crédito consignado privado injetam dinheiro na praça, mas não resolvem os problemas estruturais de produtividade.

Do ponto de vista da conformidade (compliance), anos eleitorais exigem atenção redobrada para empresas que mantêm contratos com a administração pública. As restrições da lei eleitoral para licitações e pagamentos, somadas ao rigor dos órgãos de controle, podem transformar uma oportunidade de contrato público em um pesadelo de inadimplência governamental ou bloqueio de bens. A análise jurídica prévia dos editais e a garantia de recebíveis tornam-se mandatórias.
Além disso, o aumento do crédito na praça traz consigo o fantasma da inadimplência. Empresas que vendem a prazo precisam revisitar suas políticas de crédito e cobrança, fortalecendo as garantias contratuais para assegurar que o aumento das vendas não se transforme, lá na frente, em prejuízo contábil.

O ano de 2026 não será o ano dos amadores. A expressão "pouso suave" utilizada pelo mercado financeiro sugere controle, mas na aviação, o pouso é a manobra que exige maior perícia do piloto. Na economia, isso significa que a margem para erro é mínima.
O empresário que ignorar a persistência dos juros altos ou se deixar levar pela euforia momentânea dos estímulos eleitorais poderá ver seu patrimônio estagnar ou regredir. A chave para atravessar esse período não está em esperar que a economia "decolem" por milagre, mas em preparar a empresa internamente: blindando juridicamente as operações, otimizando a carga tributária e aproveitando as oportunidades de consolidação que surgem em mercados desiguais. Em um ano de incertezas, a melhor aposta é na segurança jurídica e na eficiência da gestão.